"Eu quero. Eu preciso continuar apostando nas ameixas.
Não sei se devo. Também não sei se posso, se é.
Permitido, sei lá. Acho que também não sei o que é dever ou poder, mas agora estou sabendo de um jeito
bem claro o que é precisar. Certo? Quando a gente precisa não importa que seja proibido . Querer? - Interrompeu-se
como se eu tivesse feito uma pergunta. Mas eu não disse nada.
-Querer a gente inventa." /caio fernando abreu.
E ela batia o teclado do seu laptop comprado com grande esforço das noites que trabalhou prum puteiro. mas com certo desleixo, por que a luz era baixa, e só usava uma mão, com a outra segurava o livro de onde roubava as palavras, que expressavam um pouco do que sentia depois de tanto que sentia. Por usar só o indicador e o minguinho, e o texto ser um pouco comprido, pegou um apanhado geral. encheu de erros de datilografia, que se estivesse num exame daqueles que existiram nos anos setenta, ela certamente, não passaria.
mas tava lá na tela do computador, o mesmo surrado de dois anos, computadores não tem vida util muito extensa, pensava. ja é hora de trocar de máquina. e comprar um novo HD, por que não tinha mais espaço pra todo o vazio q sentia.. ainda q rouba-se dos outros tantas palavras pensou em deletar as cartas que escreveu, mas tbm, o q podia mudar? ter ou não, não deveria jamais tê-las escrito, agora. tanto faz. era melhor q estivessem ali, salvas.
pra poder criar outras coisas novas, e não se preocupar mais, no q foi criado e não foi útil, até o inutil é útil pra nos mostrar o que pode ser mais essencial, ou o que não é.
viveu no exterior mas por incompetência só escrevia
em português, estava aprendendo francês na itália.
e nada, nem ninguém poderia pará-la. apenas aquelas cartas.
que ela relia, e as conversas que relia, quase q como
furasse os olhos de tanto q repetia essas atitudes. lia. lia e relia. apenas pra perceber, se entendia. o q escapou q não entendia até então.
Devia ter algo escapado da compreensão. ou era tudo assim mesmo? tudo tão claro que cegava?
não ela não tinha mais óculos escuros, havia trocado por meio quilo de lentilha. e nem espaço no corpo pra
mais cicatrizes. já havia pulado no fogo três vezes,
desde q se lembra. mas não lembrava de tudo.
e achava que isso explicaria. a amnésia explica.
o q podia não ser. não se sabe.
era ausente, mas uma insegurança quanto ao passado
bem presente. ganhou uma vela de presente de
aniversário, uma vela amarela, pra espantar mosquitos.
ficou feliz. e uma ligação. e outra ela mesmo efetuou.
quem era pra ligar não ligava, e ela resolveu saber pq.
descobriu que foi sem querer e acreditou. nunca vai saber
a verdade. mas tbm não precisa. ela sente a chama
diminuir por estar mais distraída, com a primeira ligação.
aquela que não devia ter acontecido. mas foi bom.
e que ela se cobra mais orgulho. e podia não ter atendido.
mas atendeu. e pensou que raios de mulher sou?
pq não posso querer mais falar.
mas eu quero.
e nem é mais preciso. antes achava que era necessário.
respirar o mesmo ar que te rodeia. quanta bobagem
romântica, tola. aquela garotinha. não era nada boba,
agora. tinha um namoro, uma relação com muita tensão
sexual que já duraria meses.
se não tivesse deixado tudo pra trás por novos horizontes.
por que sabe que sexo não a prende. e nem mais se
repreende. como antes. apenas lembra, agora do seu
retiro, pq sempre se retira quando está confusa demais.
mas as lembanças são vivas, dos banhos quentes
depois da chuva. da noite q tomaram vinho na cama.
beijos de todos os gostos.. e todos os gostos eram
poucos. repetir porque não, se estivesse próxima.
mas mais próxima era realmente difícil.
então, sabia desdo comeco, que era infundada a relação.
um dia acreditou que pudia durar pra sempre.
mas não.
durou pouco, tempo suficiente pra saber que era bom.
mas não o suficiente, pra se decidir quanto ao inevitável.
e nada é inevitável. ela sabia, depois de tudo que viveu.
e nem viveu tanto assim. contava nos dedos as
relações saudáveis, e achou que tinha umas duas apenas.
mas relendo todas aquelas conversas, ficou em dúvida.
concedeu o direito da dúvida.
não pudia dar mais nada, não tinha nada mais pra dar.
tinha esse computador velho, mas só talvez
se comprasse um outro. em dois meses.
estaria mandando não se sabe como.
sem problema, nem compromisso.
queria rever. a primeira ligação, pra ter certeza.
não podia, não resistiria. que merda de mulher é vc?
se perguntava. se perdia perguntando. e perdia noites de
sono. nem tantas assim.
leu por último o poema que foi escrito pra ela.
não era revelador. aliás, só falava de uma dor.
a dor que ela queria esquecer. mas não sabia como,
era tudo muito vivo ainda. ninguém havia morrido.
não que não quisessem matar, há tempos. já faz tempos
e o tempo não apagou. ela sabia, nas cartas
dizia o tempo não apaga, não faz esquecer, o tempo
só ajuda a aumentar o vazio, do q se podia ter feito, e
não fez. não, não era verdade. isso talvez
estivesse num dos textos que roubou de um dos livros
que gostou de ler.
e por falar na dor, q ela sentia. ela sabia muito bem,
melhor do que ninguém, que ela ajudou a compor, antes
era como um som extremamente desagradável, agonia. e
angústias misturadas, numa sopa de insegurança e
auto-rejeições, que se refletiam, nas atitudes alheias.
escreveu tantos poemas, rendeu tantos versos.
e versões, no silêncio q se instaurou.
Depois se acostumou, e parou de reclamar pra si.
pq não tinha sentido, era só ela quem escutava. e mesmo
que surda. sentia, demais. deixou passar. mas não assim
facilmente falando. agora é bem simples pensar. pq o
passado é distante. ela também está distante.
e tudo tem um sentido de ser vago. e abstrair é bom.
é fugir dos limites. e das fronteiras. agora ela escuta
uma música triste. mas ainda sim bonita. um som
incompreenssível. e sincero. e talvez se não existissem
esses dialogos gravados, e se não existisse esse
computador velho salvando, as coisas todas. ela nem ia
pensar a respeito. ou talvez nem existiria tanta
insegurança. pois já teria acreditado denovo.
quem diabos eu virei? pensava essa mulher, com
o coração de guriazinha. que não consegue acreditar sozinha.
mas a dúvida já é alguma coisa.
pra quem tinha a certeza de nunca mais.
a dúvida deixaria a outra pessoa feliz.
se esta pessoa não parecesse demonstrar mais.
" tudo se compoe e se decompoe
tudo se compoe e se decompoe
tudo se compoe e se decompoe."/ Paulinho Moska