Tuesday, February 26, 2008

on you..


ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mario Quintana

Monday, February 11, 2008

Friday, February 08, 2008

Pode ser lágrimas de São Pedro...





(...) Ou talvez um grande amor chorando
Pode ser o desabotoado céu
Pode ser coco derramando (...)
futuro imprevisto
noites sem cordas
madrugada fria
felicidade solta


e fotos pra lembrar q ainda ha o q se lembrar..

esse abraco q me escapa...




"Este vazio de amor todos os dias: a cabeça pesada ao meio-dia,

a boca amarga, um cheiro de sono e solidão nos cabelos

uma xícara de café bem forte espantando os arcanos da madrugada,

e muitos cigarros, as roupas, o espelho, os colares, as pulseiras.

Procuro e não acho. Mas saio para a rua tod(a) de roxo..."




[Caio Fernando Abreu]

...

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e distancia
Teu corpo do meu ver tão longemente,

E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.



Fernando Pessoa, 12-1911

Friday, February 01, 2008

chove chuva chove sem parar


dublin manda lembranças...

para os fumantes inveterados..


Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar... Quintana

[please, don`t smoke.]

Café da manhã


Pôs café
na xícara
Pôs leite
na xícara com café
Pôs açúcar
no café com leite
Com a colherzinha
mexeu
Bebeu café com leite
E pôs a xícara no pires
Sem me falar
acendeu
um cigarro
fez círculos
com a fumaça
Pôs as cinzas
no cinzeiro
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu
debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.


Jacques Prévert